sábado, 22 de setembro de 2012

JANELA DE RECORDAÇÕES



Por dentro  daqueles  quadriculados  vidros,
da  velha  janela  com  as  portas  de  crivos,
- da noiva, já de olhos cansados, - as  belas  rendas 
saíam  de  suas  mãos,  com quantos  suspiros.


Lá dentro  daquela  saudosa  janela,
quanta  nostalgia  e  lamentos,  enfim...
daquele  amor  que  nunca  terá  fim,
- ansiosa  felicidade daquela donzela.-


E vós, que da  janela também  aguardavas:
o  marido  ausente,  distante,  que  amavas;
a  mãe  dilacerada,  o  filho  que  combatia!


E aquela triste viúva,  com  a  dura  saudade,
orava  pelo querido seu, - dura  fatalidade! -
Sois janelas de recordações, vidas que possuías.  


Valdemar Muge


sábado, 4 de agosto de 2012

CARTA AO AMOR


Querido amor – nesta aurora
que pela minha janela invade,
faz-me recordar-te,
a luz que à volta espalhas
no conchego das carícias queridas.
Escrevo-te não por pensar que estejas longe,
porque sei que sempre estás perto de mim;
não para saber notícias tuas,
porque tu amor, não andas sem mim!
Encontrei-te, e és a aurora que sempre nasce;
a continua vida que abraçamos, neste enlace;
a esperança nos corações que se querem;
o carinho espargido à volta dos nossos seres;
o afecto que se propaga, enquanto viveres!
Não tomes esta, por carta,
mas por mensageira do amor!
Esse sim, está aqui, ali,
em nós e em toda a parte que percorrermos
e onde felizes o espalharemos!
Serás sempre, amor, a primavera que renasce
no jardim da essência que floresce!
Sempre existirá o amor onde quisermos,
desde que os corações queiram
nesta vida que vivemos!


Valdemar Muge

sábado, 28 de julho de 2012

CARTA À JUVENTUDE


Amiga:
Tanto tempo vai que não falamos
e como bons amigos fomos...
Saudades ficaram dos nossos bons tempos,
quando andamos nas ideias e inventos;
nas esperanças das nossas aspirações;
nas alegrias, fantasias e ilusões...
Agora, que tão longe estás, bem distante,
impossível nos encontrarmos mais...
resta-nos a recordação com a saudade querida,
da fase maravilhosa tida,
agora nostálgica da nossa vida.
Ó minha boa amiga juventude,
bem sei, que tiveste que seguir teus caminhos,
imigraste para bem longe, teu destino,
e eu, sozinho, aqui fico, não sei para onde vou...
sei que te amei, que te perdi, agora sou o que sou!
Tu que tanto gostavas de carinhos,
não tiveste talvez tantos quantos querias
e não tanto folgaste e expandiste teu ser,
mas enfim... tempos que cada um tinha
e seu espírito dava e sentia.
Hoje, tu e eu, temos a saudosa recordação
na amena tarde da tranquilidade.
Tu, seguiste teu destino e eu, aqui,
resta-me reclinar à sombra da madura arvore da vida
e recordar essa vida que nos foi querida!


Valdemar Muge

sexta-feira, 20 de julho de 2012

RUA DAS FONTES



  
Ó velhas fontes, onde estais?
Tanto que chorastes, lágrimas que o vosso riacho as levou e hoje,         já gotas não derramais.
Ó fontes perdidas, já não as encontro, já não com elas hoje choro...
Eram dez bicas (*) que a fresca água os corações apaixonados refrescava e a sede sequiosa do sempre crescer à vida, matava.
Eram dez fontes, que suas águas, aos olhos, o espelho reflectia e espelhava, deslizando por entre os verdejantes campos de milho que à sua volta crescia, ao encontro das águas da fonte enamorada e não menos cantada no romântico Casal.
Eram dez, que em tempos idos, saudosas, suas águas se juntavam às donzelas apaixonadas que ficavam a chorar pelos seus queridos que muitos foram e não mais voltavam.
Ó fontes desta Rua, agora, já não mais choram, choro eu por vós, até que minhas lágrimas sequem, nesta fraternal saudade hoje e sempre sentida.
Choro eu, para que minha saudade vá no deslizar do vosso riacho que em tempos idos  te abraçava e em terno carinho te cantava.
Ó Rua das Fontes, hoje, fontes essas já não as tens, são saudades que ficam dum tempo que o tempo levou!... Agora, tens o Herculano para tuas mágoas também prosar.
Rua das Fontes, nesta terra sempre o serás! Com elas nasceste, pois teu nome assim começou e sempre recordado será.
 Dentro de todos, então jovens, hoje mais vividos, seus amores e venturas, guardados estão nos corações de cada um ser, desta rua de Ovar.


1(*)
Correio11s: 1; Pinho: 2; Júlia: 1; Vidal: 1; Pública: 1; Samaritana: 1; Lamarão: 1; Regueira: 1; Pública (Mota): 1.

Valdemar Muge

quarta-feira, 11 de julho de 2012

PESCADOR DA MINHA TERRA



Velho pescador de tez enrugada, 
olhas teu mar amado;
Meditas pelo que passaste...
Teu olhar, se perde pelo horizonte
do mar onde trabalhaste.
Foi nessa imensa e branca areia
que em criança brincavas e corrias
até à cariciável onda que te esperava
e te despertava para a tua luta na vida.
O mar te chamou!
E assim foste: “valente, audaz e digno lutador!”
Recordas as alegrias que passaste
e o fruto do trabalho que realizaste.
Quantas vezes em lutas desesperadas,
nas ondas furiosas, encapeladas,
lutaste, e sempre quiseste vencer,
fugindo à morte, sem temer!
Agora… olhas o teu mar, são recordações.
Na tua voz, guardas o roncar das ondas encapeladas
e no teu coração, a suave magia do deslizar
à praia da mansa onda, afagando.
Hoje, velho lobo do mar,
deixas deslizar tuas lágrimas de saudade
que se mistura nesta maresia tão tua;
Recordas como ficou a polida rua,
que também a percorreste com o peixe
ao som do teu pregão.
Saudoso pescador:
Vencedor da proa desfraldada
e das ondas encapeladas;
lutador pela vida, digno como outros o são;
humilde homem, mas de grande alma e coração!
Hoje, orgulhoso de ser o que na sua alma encerra:
Digno pescador da minha terra,
desde criança e até à morte, foi sua herança:
O brioso orgulho de ser da sua terra
e ter o maternal afago, o seu mar,
esse que beija docemente a sua OVAR!

           Valdemar Muge

ESTRADA PRÓ-MAR



Do alto da tua estrada, seu início, me indicavas meu destino.
Daqui, na então tua fresca sombra, me levavas até ao mar. Teu arvoredo me abraçava, levando-me ao branco areal que se estende debruçado nas tuas salgadas águas.
Daqui, recebias os teus pescadores vindos dos Bairros que te afluíam:
Vinham do Lamarão, dispostos a enfrentar a força do seu mar;
 Da Arruela, origem de tantos valentes destas águas vareiras.
 Da Ribeira, da Marinha, dos Campos e de tantos outros lugares, vinham os lavradores com seus bois, para as redes puxar na praia, na faina do pescado, ansiosos de boa pesca.  
Eras tu, estrada para o mar, que abraçavas toda esta gente que ainda antes do alvorecer, caminhava ao encontro do mar.
Do teu alto, inicio da estrada e percurso destes valorosos, caminhavam até que seu mar os avistasse e suas vozes com o habitual entusiasmo, se ouviam: “Pró-mar! Pró-mar!”
Serias então o tronco resinoso que em ti percorriam, daqueles que te afluíam, das gentes dos Bairros que te circundavam, o diário encontro para aquela dura vida, dum povo que nasceu e cresceu à beira-mar, que na suas roucas vozes ecoava o som do bramar das suas águas e a fragrância da maresia marinha que na tua estrada sempre entoavam: “Pró-mar! Pró-mar!”
Hoje, já assim não acontece. O eco dos teus pescadores já não se ouve,
apenas viaturas apressadas, quantas vezes sem se lembrarem daquele mar lá em frente.                   A fresca sombra por onde a aragem do teu mar deslizava, já longe vai... mas ficou o sabor do teu salgado mar, que pela estrada te vem.
Hoje, és mais moderna e turística, obra que os homens te fizeram.
Já não és a então Estrada Pró-Mar, porque aqueles que recebias, já de ti se despediram... e, no teu mar, poucos o abraçam e o enfrentam na lida da pesca.
Já não és a estrada dos velhos pescadores desta terra, fica com a saudade daquilo que foste, que eu fico com a recordação dentro do meu coração.
Enfim, hoje és irmã adoptiva, que te deram, o nome da terra para onde teus filhos foram: Régua, amiga.


Valdemar Muge

VARINA DA MINHA RUA



Quando passas por mim na rua,
graciosidade que foste e ainda como é tua...
és do mar, varina amada, varina cantada,
airosidade que espalhavas na rua calcetada.

Recordas tuas venturas, teus pregões,
quantos o eram, do mar à terra se ouviam.
Tua voz, conhecida de todos era e ouvir queriam,
varina do mar, varina da terra e das canções.

Hoje, tantas saudades guardas:
Uma vida, que a vida te deu quanta
ditosa felicidade e canseiras tantas,
e grata é ao Deus, seu olhar eleva.

Mundo o dela em que hoje vive...
como feliz é, nele assim pensar;
triste é, se meditar em tudo que vê e existe...
feliz dela, que só recorda o que quer invocar.

Como tu, tantas que com saudades existem,
varinas foram e são recordadas;
foram e sempre serão amadas,
nesta terra onde eu e elas vivem.

… Quando hoje aqui, estas palavras vos leio,
     esta querida Varina da minha rua,
     é-nos uma recordação minha e tua
     e saudade dela, ao meu coração veio.


Valdemar Muge